Jorge Furtado

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Jornalisminho

 Capa da Folha de S. Paulo de hoje, 21/03/10, manchete principal:
 
Lula inaugura obras que voltam a ser canteiros
 
Sub-título:
 
De 22 inaugurações, 13 foram de construções que hoje não funcionam 

Manchete da notícia, na página interna:
 
Após inaugurações, obras de Lula voltam a ser canteiros
 
Sub-título:
 
De 22 realizações entregues por petista e Dilma desde outubro, 13 não funcionam efetivamente
 
(E lá vamos nós pelo vale-tudo dos “efetivamente”, dos “supostos”, dos “boatos internéticos”, das manchetes com sujeito oculto...)
 
Primeiro parágrafo da matéria:
 
Com a ministra e pré-candidata petista Dilma Rousseff na garupa, o presidente Lula viaja pelo país para "inaugurações" que, logo após a desmontagem do palanque oficial, voltam a ser canteiros de obras.
 
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Segue a matéria, procurei bem, não há qualquer notícia em parte alguma, só há  "notícias", entre aspas.
 
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O target desta peça publicitária da candidatura demo-tucana é, suponho, a elite paulista, esperando que circule, quem sabe, via programas de jornalismo trash nas tevês e nas rádios, até chegar aos alagados paulistas, com sorte aos alagados do país inteiro.
 
O que o jornal demo-tucano de S. Paulo quer vender em sua capa da edição de domingo é: Lula é um farsante, inaugura ficções, com a Dilma na garupa. (“Garupa! Grande palavra! Garupa é ótimo!”) Não faltarão abobados da mídia para transformar 13 sobre 22 numa porcentagem e concluir, entre exaltações e perdigotos, que “mais de 50% das obras do Pac não existem!”. Espere, daqui pra frente, ouvir muito a palavra “garupa”, em piadas que o patrão gosta e nos inflamados discursos rádio-televisivos em defesa da honra nacional, mas não da estadual ou municipal.
 
A matéria da Folha só é eficaz para desinteligentes, para quem não está prestando muita atenção, um número razoável mas decrescente de brasileiros. Como jornalismo, não é absolutamente nada.
 
Além de um mínimo de respeito com a inteligência dos que já foram ou ainda são eventuais leitores, a Folha devia ter, um pouco mais de cuidado no trato das palavras.
 
Ao sub-título da capa (“De 22 inaugurações, 13 foram de construções que hoje não funcionam”), falta, além de honestidade intelectual, no mínimo um “ainda” ou um “mais”.
 
“De 22 inaugurações, 13 foram de construções que AINDA hoje não funcionam”, se for verdade, significa que as tais construções AINDA não ficaram prontas, que a cerimônia de inauguração foi simbólica, manifestação política, ou eleitoral, ou eleitoreira, mas que talvez, quem sabe, as obras não pararam e vão ficar prontas um dia.
 
 “De 22 inaugurações, 13 foram de construções que hoje não funcionam MAIS” significaria que as tais construções viraram ruínas ou foram abandonadas, um enorme desperdício. Esta leitura é mais do que possível, acredito até ser a primeira leitura.
 
A construção da frase como está, “De 22 inaugurações, 13 foram de construções que hoje não funcionam” é intencionalmente um mostrengo. ("Hoje não funcionam? E na segunda-feira, funcionam?") 
 
Confusa de propósito, a Folha está contando com a tolice dos seus leitores para completar o serviço, esperando que a versão “ruína, desperdício máximo”, capaz de causar maior dano ao governo Lula e produzir mais benefícios eleitorais/empresariais, germine e frutifique.
 
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De um texto que escrevi e publiquei aqui há quase dois anos (25/06/08):
http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/veneno-remédio
 
“Acho que é a gritante parcialidade da grande imprensa pró-Serra - que menospreza, a ponto de parecer puro preconceito, a importância da diminuição da desigualdade social no Brasil e os bons resultados do governo Lula - a principal responsável pela antipatia que o governador de São Paulo provoca. Com proteção tão deslavada, acho possível afirmar hoje (25/06/08) que Serra, o atual líder das pesquisas de opinião para a sucessão de Lula, tem pouca ou nenhuma chance de ser eleito presidente, o que talvez seja uma injustiça. Serra é inteligente, parece um sujeito decente e foi um bom ministro da saúde. A proibição da propaganda de cigarros, em sua gestão, foi um importante avanço no país e ajudou muita gente a parar de fumar, inclusive eu. A elite paulista é tão grosseiramente cega na defesa de Serra que passa ao país a sensação de que não é um bom negócio fazê-lo presidente.”
 
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Em 2010 não vamos eleger o governador de São Paulo, vamos eleger o presidente do Brasil. O provincianismo da elite demo-tucano paulista - que tentou vender ao país um presidente que, dois anos depois, não quis para prefeito – pretende agora impor a nação seu udenismo tardio. Pena que a Folha se preste a fazer este serviço. Para um ex-assinante, este jornalisminho é uma tristeza.

Enviado por Guilherme Scalzilli em 21 de março de 2010.

// O fim do ombudsman //  A Folha de São Paulo ficará dois meses sem ombudsman. Não há qualquer explicação para a lacuna, que seria tratada com a devida gravidade se alguém ainda levasse o jornal a sério. Mas, realmente, fará alguma diferença? Ninguém espera grandes avanços depois que um profissional atencioso e preparado como Carlos Eduardo Lins da Silva foi incapaz de impedir exemplos de subjornalismo (a ficha falsa de Dilma Rousseff, o dossiê contra Victor Martins, a planilha de gastos do casal FHC, a tentação sexual de Lula), proselitismo reacionário (a Ditabranda e seus congêneres, o antipetismo botocudo) ou favorecimentos corporativos (a defesa da TV paga). Isso tudo em apenas dois anos de atividade. Nas empresas que se preocupam com a fidelidade de seus clientes, o ouvidor possui função deliberativa: constrange funcionários, arranca soluções, desfaz vícios burocráticos. Já o ombudsman jornalístico virou função decorativa. Uma grife modernosa para criar ilusões participativas no leitor, devolvendo-lhe os invariáveis remedos justificativos das editorias. Convenhamos, é absurdo imaginar que uma empresa de comunicação de grande porte necessita contratar alguém que lhe aponte os erros mais bizantinos. Todo jornalista mediano, diplomado ou não, sabe perfeitamente reconhecer seus desvios cotidianos. A Folha finge que não deve satisfações aos leitores, como se os seus tropeços administrativos (e seus desvios ideológicos) tivessem um respaldo transcendente e imutável. É esse despeito hipócrita que destrói a reputação do jornal.