YOÑLU

Vini, 16 anos, chega em casa carregando lenha. Diz para os pais que pretende fazer um churrasco com os amigos. Os pais saem do apartamento no final de semana para deixar o filho mais à vontade. Estão satisfeitos com a festinha programada: é bom ver Vini se relacionar com pessoas de verdade, em vez de observá-lo por horas a fio no computador, conversando ou compondo suas canções. Vini tem até outro nome na rede: Yoñlu. Super-dotado, falando quatro idiomas, músico talentoso e dono de uma bela voz, Yoñlu encontra na Internet um campo tão vasto quanto a sua mente.

Mas Vini não tem uma vida muito distinta de seus colegas de colégio. Vai às aulas, estuda, tem uma namorada que o visita com frequência. Passou parte da infância em Paris, o que talvez explique sua personalidade cosmopolita. Os pais, que viram seus dons artísticos surgirem muito cedo, sempre o incentivaram. Os amigos, próximos ou virtuais, também sabem que, recluso em seu quarto, Vini dá vazão à sua criatividade. É natural. Nos últimos tempos, tentando diminuir sua timidez e introversão, Vini tem ido a um terapeuta.

No entanto, a lenha que Vini levou para casa não é para um churrasco com os amigos. Ele tapa as saídas de ar do banheiro e faz uma fogueira no box. Aprendeu o método com uma comunidade dedicada ao suicídio na internet. A fumaça toma conta de seus pulmões, começa a intoxicá-lo, mas Yoñlu logo percebe que não é fácil morrer. E que é doloroso. Vai para a internet e pede ajuda para o mundo. Alguns fazem piada, acham que está mentindo. Outros o incentivam a voltar ao banheiro e continuar. Dão outras ideias. Uma canadense percebe o desespero de Yoñlu e avisa a polícia federal brasileira. Quando os agentes chegam, é tarde demais: o suicídio está consumado.

Yoñlu deixou gravadas canções suficientes para um CD, que depois de sua morte foi lançado internacionalmente pelo selo de David Byrne, o líder da banda “Talking Heads”. Sua história virou matéria de cinco páginas na “Rolling Stone” brasileira. Seu talento é reconhecido na rede e fora dela. Seus pais, sua namorada, seus amigos, seus fãs, tentam compreender o que levou Vini a fazer o que fez. Talvez nunca compreendam. O filme “Yoñlu” é um retrato dessa dor e dessa perplexidade. Mas também é a história de um artista que escolheu seu nome, traçou seu caminho e o seguiu, com extrema convicção, até o fim.

Direção: Hique Montanari
Roteiro: Hique Montanari e Carlos Gerbase
Produção: Luciana Tomasi
Montagem: Giba Assis Brasil