Pobre Alice

por Jorge Furtado
em 25 de abril de 2010

-- Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e assim você esquece de falar. Eu não lembro neste exato momento qual é a moral disso, mas eu vou lembrar já, já - disse a Duquesa.

-- Talvez não tenha moral nenhuma - Alice arriscou um palpite.

-- Ora, como não? - disse a Duquesa - Tudo tem uma moral, é só procurar - E ela se encostou mais ainda em Alice.

“Como ela adora achar moral nas coisas!”, pensou Alice consigo mesma.

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll


A primeira coisa a ser dita sobre a versão Disney/Burton de “Alice no país das maravilhas” é que o filme é chatíssimo. Assisti numa sessão com a sala cheia de crianças, a única risada veio quase no fim, quando o Chapeleiro dança um rap. Sem boas piadas, o filme também é incapaz de emocionar ou assustar, só não dormi porque a sessão era às dez da manhã. O roteiro não tem pé nem cabeça e, como nas mais aborrecidas narrações de sonhos malucos, tudo pode acontecer a qualquer momento, o que não tem graça nenhuma.

Não sobrou quase nada da Alice de Lewis Carroll, uma menina alegre, curiosa, muito engraçada, que adora a vida, transformada por Burton numa órfã sonsa deprimida e careta. O livro de Lewis Carroll rompeu com os paradigmas das fábulas moralizantes, inventadas por adultos para apontar às crianças o caminho do bem. O filme de Burton transforma Alice numa heroína banal, armada com uma espada e incumbida de uma missão, devolver o poder do País das Maravilhas, usurpado pela rainha má e sanguinária, a uma soberana tola e natureba.

De todas as aberrações do roteiro, talvez a mais chocante foi ter transformado o Chapeleiro Maluco, genial personagem de Carroll, num “amiguinho” de Alice, parceiro em sua luta do bem contra o mal. O Chapeleiro, pasmem, chega a duelar com um Cavaleiro Negro de tapa-olho e cicatrizes na cara, talvez Arnold Schwarzenegger fosse escalação melhor que Johnny Depp para este papel.

Depois de sua breve incursão ao mundo das banalidades hollywoodianas, Alice volta à Inglaterra - não despertando de um sonho, mas saindo pela boca do buraco do Coelho, toda suja de lama - onde passa a dar lições sobre fidelidade no casamento, recomenda que sua tia maluca faça análise, sugere que pessoas com problemas gástricos não dão bons maridos, torna-se empresária e elogia a “rica cultura da China”, para onde parte, na certa para defender os interesses da Disney no fabuloso mercado chinês. (Desde que fez “Kundun”, filme de Martin Scorsese que denunciava o massacre do Tibete pelos chineses, a Disney tem bajulado a China, primeiro com “Mulan” e agora com Alice).

A favor do filme, sua direção de arte, cenários e figurinos, muito bonitos. Burton, que recentemente estragou “A fantástica fábrica de chocolates”, talvez devesse se dedicar exclusivamente às artes plásticas, onde parece bem mais à vontade.

O mínimo que a parceria Disney/Burton tinha que ter feito antes de profanar a memória de Carroll e Alice era ter mudado o nome do filme, talvez “Alice no país dos clichês” ou “Através da bolsa de Xangai e o que Alice encontrou lá”. Ao usar o título do livro de Carroll em sua contrafação, a Disney e Burton prestam um extraordinário desserviço à história da literatura, fazendo que uma geração de crianças pensem que “Alice no país das maravilhas” é apenas mais uma das fábulas moralizantes que tão bem fazem aos cofres de Hollywood e tantos prejuízos causam ao cérebro.

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Tabela comparativa de 13 traduções brasileiras de “Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll:

http://www.casacinepoa.com.br/sites/default/files/images/tabela.pdf

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Texto de Rosane Pavan, em Carta Capital:

Alice cai no buraco

Alice ainda é a menina de Lewis Carroll, e quem a toca, exceto seu criador, facilmente se engana sobre tudo aquilo que ela significa. Erram, aliás, os que a veem apenas como uma menina. Esse personagem representa uma categoria do pensar literário ocidental, do aventurar-se pelo inconsciente, até do enlouquecer. Apaixonado pela cultura vitoriana que emoldura o livro de 1865, estabelecido profissionalmente em Londres na casa que pertencera a Arthur Rackham, sucessor de John Tenniel nas ilustrações para Carroll, o cineasta americano Tim Burton estaria preparado para esta adaptação como nenhum outro, desde que, em 1966, o inglês Jonathan Miller usara Peter Sellers como Lebre de Março e criticara a sociedade vitoriana. A própria Disney fizera sua animação musical em 1951 a partir do livro, embora não tivesse contado com o roteiro do inglês Aldous Huxley, demitido depois de apoiar uma greve em Hollywood durante a qual seu filho fora espancado a mando dos estúdios.

A Disney de nossos dias não pensou duas- vezes ao contratar Burton. O filme, que levou dois anos para ser feito, rendeu até o momento 750 milhões de dólares de bilheteria. O produto propicia licenciamentos infindos. A joalheria H.Stern faz anéis que evocam as paisagens subterrâneas dos cenários. A linha de maquiagem BSide apresenta sombras nas cores berinjela, chumbo, laranja e azul para que as consumidoras se pareçam com as rainhas Vermelha e Branca, quiçá com o Chapeleiro Maluco vivido por Johnny Depp. No catálogo da Ellus, o modelo Jesus Luz figura não entre madonas, mas entre alices próximas a lolitas.

Bem-sucedida financeiramente, contudo, a obra ficcional de Burton resume-se a um exuberante e às vezes tedioso exercício de visualidades em 3D a contrariar, para não dizer ferir, o original de Charles Dod-gson, o matemático conhecido por Lewis Carroll. A partir do roteiro de Linda Woolverton, contratada pela Disney para redigir sucessos como A Bela e a Fera, Burton entendeu Alice como noiva de 19 anos, desejosa de encontrar uma saída para o buraco financeiro causado pela morte do pai. Essa Alice não quer ser oferecida como esposa a Lorde Aston, que tem problemas digestivos. Aqui é curioso lembrar que o crítico americano Edmund Wilson, em 1947, vira a Alice de Carroll como uma perfeita esnobe elitista, louca para minar a confiança de seus subordinados. Em conformidade com essa visão de Wilson, a Alice de Burton renega o próprio estamento social, abandona sua festa de noivado e penetra na toca do coelho apressado, onde reencontrará, sem lembrar exatamente quem são, os amiguinhos desse mundo espetacular que visitara em sonho (ou em delírio) aos 6 anos.

A Alice de Tim Burton mistura elementos do livro homônimo de Carroll e de Através do Espelho para desinterpretá-los, à moda dos desaniversários celebrados à mesa de chá do Chapeleiro Maluco. Burton, assim, “desinterpreta” a protagonista, que se torna indiferente ao mundo explosivo ao seu redor, plana como uma calçada da americana Madison Avenue.

Burton nunca lera Carroll antes, mas vira a animação da Disney e compreendera no visual do músico Tom Petty a presença do Chapeleiro Maluco. O diretor escolheu a atriz australiana Mia Wasikowska para ser a protagonista porque detectou em seu semblante a “seriedade” requisitada ao personagem pelo roteiro de Linda. Ao fim do filme, tendo transformado o Chapeleiro em sujeito bom e útil, a garota burguesa aposta em uma rota de comércio com a China, para melhorar as finanças.

Porque sonhou, e porque o mundo à sua volta careceu de sentido, Alice cresceu não só fisicamente, mas diante de seus leitores, no decorrer de mais de uma centena de anos. Contudo, o que faz Tim Burton neste filme é diminuir a heroína às armadilhas do capital, como se o personagem tivesse mastigado o biscoito errado e, repentinamente, perdido a estatura. A primeira parte do filme ainda nos promete algo, já que é fascinante a queda de Alice no buraco, com as coisas todas que lá existem, atiradas ao espectador em terceira dimensão. Na segunda parte, a jovem se traveste de cruzado, no afã de destruir o dragão do Espelho. Tim Burton deu uma missão a Alice, mas quem disse que ela precisava de uma?

Mais do que as cabeças exigidas pela Rainha Vermelha, esta interpretada por uma sempre divertida Helena Bonham-Carter, o que se vê aqui é a arte de um diretor se perder em mirabolantes pesquisas visuais. Ele parece fascinado com os ícones populares desde que fez Batman em 1989. Seu Planeta dos Macacos (2001), contudo, nem de longe alcançava a versão original, tampouco A Fantástica Fábrica de Chocolates (2005), um colorido de truques. Burton não parece mais interessado nos bons roteiros, em uma articulação para seu pensamento. É de cortar o coração, ou a cabeça, que este bom diretor agora pene para divertir seu público.

http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=6467

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da revista de cinema Juliette

Por Josiane Orvatich

As três irmãs Lidell, entre oito e treze anos, e mais especificamente Alice Lidell, e suas vidas vitorianas, estiveram na mente de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) quando este se aventurou a escrever Aventuras de Alice no país das maravilhas (1865), e depois Alice através do espelho (1871). A história-base foi primeiramente narrada em um passeio de bote com as crianças para, após um pedido de Alice, ser escrita por Carroll.

Aparentemente, a história teria seu fim - e finalidade - somente naquela tarde de verão de 1862, restrita, portanto a umas poucas crianças, não fosse a insistência de Alice em vê-la no papel. A própria Alice - sim, Alice Lidell -, cita o biógrafo de Carroll, Morton N. Cohen*, imaginou, tempos depois, que essa história deveria ser melhor do que as outras para que ela a quisesse tanto. Tal como Alice desejou a história escrita para ela, nós, leitores apaixonados, sentimos a mesma vontade de tê-la só para nós. Difícil, então, compartilhar outras interpretações sobre a obra. No entanto, contra todas as expectativas do autor, a obra é hoje, ao lado de Shakespeare e da Bíblia, a mais traduzida em todo o mundo, o que nos impossibilita de não olhar para tantas interpretações. Logo em seu lançamento a procura pelo livro já foi maior do que a esperada. As duas mil primeiras cópias (com as ilustrações em qualidade gráfica insatisfatória) foram recolhidas, e nova tiragem foi feita. O que significa que Carroll gastou o que não tinha para garantir a beleza do livro, além de, observemos as datas, levar três anos para transcrever ao papel a história narrada às crianças. Isso é o que irá notar Morton N. Cohen acerca do não desprendimento de Carroll para com a história, ou seja, seu zelo para com a escrita e para com a apresentação gráfica nos apontam para isso.

Do mesmo modo, procuro esse zelo ao notar as tantas leituras de Alice. Agora, embalados pelo lançamento de Alice no país das maravilhas (2010), de Tim Burton, nos vemos em uma encruzilhada: quem, conhecendo a obra de Burton, não apostou ser esta a parceria ideal? O universo intrigante e obscuro do diretor encontraria o clássico do absurdo do escritor. Porém, o cinema possui produtores, nesse caso, a Disney colocou-se no caminho de um e outro, impossibilitando o encontro imaginado por parte dos espectadores. Talvez um tanto exagerado pensarmos na inocência de Burton frente à maquiavélica Disney. A animação do mesmo estúdio Disney, de 1951, tem muita “grandileza”, em palavra que o Chapeleiro Maluco de Burton utiliza para definir a “nova” Alice, agora aos 19 anos: sem “grandileza”.

A animação da década de 1950, ainda que criticada por apresentar uma meiga garotinha loira em seu vestido azul, nos traz muitas cenas inquietantes, como o encontro, para o chá, entre o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e Alice. Os jogos de absurdo são mantidos, ainda que interpretados para um cenário que não é - como nenhum outro será - a obra de Carroll. O que espanta em Tim Burton é a retirada dos elementos fantásticos para dar lugar a uma narrativa linear, em que a disputa entre o Bem e o Mal será ponto forte para restabelecer a ordem (sim, há um elogio à ordem no filme de Burton, o que não acontece na animação) com o reinado da Rainha Branca. Parece-me que de todas as possibilidades de interpretação, essa é a mais distante do efeito desestabilizador proposto por Carroll. Tal como o próprio, a vontade é de que façam uma “reimpressão” do filme, pois esse saiu borrado.

As aventuras de Alice transformadas nas de uma garota que não pode dizer não ao casamento ficam devendo, e muito, para o filme brasileiro As melhores coisas do mundo (2010), de Laís Bodanzky, em que a adolescência é tratada com maior complexidade. Não me refiro aqui a temáticas temporais - as da era vitoriana, preservadas em Alice, e as contemporâneas, em Bodanzky. Porém, é preciso pensar em qual o sentido de, hoje, adaptar uma história como a de Carroll para um aspecto tão mastigado do século XX, o feminismo. E, ainda que não se leia como feminismo, mas que não se recuse a restrição ao duelo entre casamento e vida profissional (“útil”, como dirá Alice em Burton) de uma mulher quando lançada ao abismo do absurdo. Por outro lado, a suposta inocência de Burton se denuncia quando ele, em entrevistas, afirma ter desejado fazer um filme pouco “amalucado”, o que causa estranhamento ao observarmos sua filmografia. A repetição de que Alice está sem “grandileza” ou “faltando algo”, no filme, parece demonstrar a consciência do diretor acerca da obra que estava fazendo. Entre estúdio e diretor, as noções de autoria ficam bastante complicadas. Perdemos nós, ao esperar o que de melhor se poderia fazer, frustrados. Alice, de Jan Svankmajer, ao se pensar Alice cinematograficamente, é uma melhor, e mais perturbadora, experiência. A animação da Disney, de 1951, não deixa de ser uma jornada também interessante, afastados os primeiros receios.

/ Morton N. Cohen, Lewis Carroll, uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1998.
http://www.julietterevistadecinema.com.br/Blog/Blogger/2010/04/27/42d152…