Sobre marquises-chuveiro e programas secretos de governo

por Jorge Furtado
em 26 de outubro de 2010

Na esquina de minha casa há uma marquise-chuveiro. Explicando, há uma marquise onde foram instalados, pelos proprietários do prédio, canos d’água que, quando acionados, chovem sobre a calçada. O objetivo da marquise-chuveiro é impedir que sem-teto, moradores de rua, durmam embaixo dela à noite. Marquises foram concebidas para proteger do sol e da chuva. Uma marquise que chove é uma abominação, um monumento a nossa estupidez e desumanidade.

Lembrei da execrável marquise-chuveiro ao ler, na Folha de S. Paulo, que “o candidato José Serra (PSDB) deve encerrar a campanha sem ter divulgado um programa de governo”. O motivo alegado: “os tucanos afirmam que a divulgação não ocorreu por receio de o PT “copiar” as propostas.

Cabe a um candidato à presidência da república apresentar ao país seu programa de governo, para que o eleitor decida se quer ou não votar nele. Se o programa de governo é bom, tem boas propostas para o país, quanto mais copiado ele for, melhor para o país. É uma degeneração do sistema democrático que um candidato esconda suas propostas de governo com medo de que elas sejam copiadas e espere que alguém vote nele sem saber o que pretende fazer com o país.

No debate de ontem, na Record, Dilma perguntou claramente ao Serra o que ele pretendia fazer para ter um desempenho melhor que o governo FHC na geração de empregos. Dilma lembrou que o governo tucano gerou 5 milhões de empregos e o governo Lula o triplo, 15 milhões. Serra simplesmente não respondeu, preferiu mudar de assunto e fazer acusações, não falou sobre empregos.

Dilma também perguntou claramente, por duas vezes, qual a opinião de Serra sobre o sistema de concessões na exploração do pré-sal, citando dois importantes tucanos que se manifestaram publicamente contra o sistema proposto pelo governo Lula. Serra, nas duas vezes, não respondeu, enrolou-se, tegiversou, acusou Dilma de privatizar a exploração do petróleo, afirmou mais uma vez “ter idéias próprias”, embora as tenha mantido, como sempre, em segredo.

Espero que Dilma, no último debate na Globo, pergunte outra vez ao Serra quais seriam suas “idéias próprias” a respeito da exploração do pré-sal, ele já escapou da resposta em vários debates, deixou a todos curiosos. E o que pretende fazer para gerar empregos, já que seus aliados consideram obras do PAC, como a construção de refinarias no nordeste, “investimentos de rentabilidade duvidosa”.

Espero também que Dilma baixe o tom do debate, não caia no clima de baixarias e agressões que só interessa a quem está perdendo. Ninguém aguenta mais aquela agressividade, mais daquilo só aumenta os votos nulos e brancos.

Esta eleição está terminando. Sabemos que Dilma pretende, como disse incontáveis vezes, dar continuidade ao governo Lula, manter sua política de desenvolvimento com inserção social e geração de empregos, agora com maior ênfase na educação, usando as receitas do pré-sal, controladas pelo governo brasileiro, para alavancar o desenvolvimento.

Quase nada sabemos sobre o que Serra pretende fazer, se eleito. Ele pouco defende o governo tucano, do qual foi o segundo em comando, escolhido para suceder FHC, nem defende o governo Lula, nem poderia, pois sempre lhe fez oposição. Serra relembra seu passado de esquerda enquanto sua campanha distribui panfletos da TFP e santinhos louvando a palavra de Cristo. Serra um dia não sabe quem é o Paulo Preto, gestor das principais obras do seu governo, noutro submete-se a uma tomografia computadorizada para verificar danos causados por bolinhas de papel e fitas invisíveis. Enquanto isso, mantém secreto, por medo de plágio, seu hipotético programa de governo.

Serra sai desta eleição como uma figura esdrúxula, o “Zé, o amigo do Lula” que afirma que “Jesus é a verdade”, que ofende jornalistas, que trouxe para a eleição, nos seus programas de tevê, temas como a condenação moral ao aborto e a quebra do sigilo fiscal da própria filha, que promoveu a mais baixa e mesquinha campanha eleitoral desde sempre, incentivando seus trogloditas internéticos a distribuir mentiras e calúnias de todo tipo, com telefonemas criminosos pregando ódio e ressentimento. Enfim, uma marquise que chove.

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Atualizado em 30.10.10:

A campanha terminou. O que Serra pensa sobre o pré-sal?

Não vi todo o debate da Globo, me deu aflição ver os indecisos, depois de fazerem suas perguntas, serem constrangidos a ficar de pé, por mais de seis minutos, encarando os candidatos que disputavam a primazia de elogiá-los, com ênfases para lá de ensaiadas. Acho que Dilma ou Serra teriam ganho muitos votos se tivessem perguntado, a qualquer um deles, se não preferia sentar para ouvir a resposta. Mais que apenas responder, líderes deveriam saber perguntar. E ouvir. Sugiro, para a eleição de 2014, que os candidatos façam perguntas aos indecisos, com direito a réplica e tréplica. Seria um debate bem mais proveitoso.

Por não ter visto tudo, não sei se algum indeciso perguntou sobre o melhor uso que o país pode fazer das reservas do pré-sal. Se não perguntou, a campanha terminou e eu, que acompanhei o assunto com alguma atenção, fiquei sem saber quais seriam as alegadas “idéias próprias” de Serra sobre o tema.

A campanha termina e Serra não apresentou nem registrou um programa de governo.

Informa a Folha de S. Paulo de hoje:

Serra finaliza, mas não registra seu plano

Coordenador das propostas de governo diz que um dos motivos para não divulgá-las é que o PT “copia” idéias. Boa parte do compilado ataca a gestão no setor energético do governo, área que esteve sob a gerência da adversária.

Após passar dois meses sendo revisado, a campanha de José Serra (PSDB) à Presidência finalizou anteontem um programa de governo que não será apresentado aos eleitores nem registrado oficialmente. (…) “Foi uma opção do marketing da campanha. Por mim, lançava antes”, disse Xico Graziano, ex-secretário do governo Serra em São Paulo e responsável pela coordenação do programa. Segundo Graziano, outro motivo para que o programa detalhado não tenha sido divulgado antes foi o fato de a campanha de Dilma Rousseff (PT), segundo ele, “copiar” propostas tucanas.

PRÉ-SAL

A campanha tucana fala em rever a criação da Pré-Sal Petróleo. “O governo do PT propôs mudar o marco legal de exploração do petróleo simplesmente para fortalecer um discurso vazio e ideológico. O modelo proposto representa um voto desconfiança na Petrobras, retarda a exploração do pré-sal e traz insegurança para o setor.”

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Indio da Costa, na Rocinha.

Segundo o site da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, a vereadora Liliam Sá (PR) é a autora da Lei nº 3437/02 que criou o Mercado Popular da Rocinha.

http://www.camara.rj.gov.br/vereador/cada/liliam_sa/liliamsa_perfil.html

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Boa eleição a todos.

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Do que o Brasil precisa?

“Olhe: o que deveria de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem no definitivo a noção - proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim davam tranquilidade à boa gente. Por que o governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias… Tanta gente - dá susto se saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons…”

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.
https://www.casacinepoa.com.br/blog/2010-07-10-do-que-o-brasil-precisa/