Tersites

Há alguns anos, quando uma amiga largou o emprego, abriu um negócio num ramo em que não tinha qualquer experiência, vendeu seu ótimo apartamento na cidade grande, onde sempre morou, para alugar um sobrado numa cidade pequena, uma grande casa tombada pelo patrimônio histórico e precisando de reparos, comprou dois cachorros e começou a namorar um sujeito estranho, que enfrentava um complicado processo de separação com a sua segunda esposa, um amigo comum comentou: “Tudo pronto para dar merda.”

TPPDM é o ponto em que os dramaturgos e roteiristas buscam chegar ao final do primeiro ato, é provável que você tenha ficado curioso em saber o que houve com a minha amiga. Na tragédia grega o espectador se compadecia ou vibrava com os acontecimentos na história sabendo que os personagens nada mais faziam do que cumprir seus destinos, previamente traçado pelos deuses. O público de Shakespeare, ao contrário, moldado por 15 séculos da moral cristã – Deus deu ao homem o livre arbítrio - torcia por personagens que, por suas escolhas certas ou erradas, eram os responsáveis por seu destino. Hamlet poderia ignorar os pedidos do fantasma, Macbeth não precisava ter ouvido os conselhos de sua querida esposa, Otelo não precisava ter acreditado nas fofocas de Iago, Lear não deveria dar ouvidos às filhas bajuladoras, Romeu não tinha nada que pular o muro e entrar naquela festa, foram suas escolhas erradas que deram no que deram, TPPDM. Enquanto a tragédia clássica ensina que são inescapáveis os caminhos do destino, Shakespeare inventa um ser humano responsável por suas escolhas.

“Nós somos a soma de nossas decisões”, diz o shakespeariano Woody Allen em “Crimes e Pecados”, um de seus grandes filmes, mas isso é apenas um terço da verdade. Às vezes os personagens, como nós, podem escolher o mais absurdo e improvável dos caminhos e, assim quis o Destino, encontrar na curva da estrada a sua verdadeira vocação ou o amor de sua vida. Minha amiga, informo aos curiosos, deu-se muito bem em sua nova profissão e romance, embora tenha reconhecido rapidamente que é difícil passar o inverno numa casa sem vidros nas janelas.

Além de boas decisões e sorte, a posição social de cada um, pessoa ou personagem, também define o rumo das suas histórias. Os personagens citados, Hamlet, Macbeth, Otelo, Lear e Romeu, são reis, príncipes, homens ricos que seguem sua vontade e mais ninguém. Aos servos, aos soldados e aos escravizados, livre arbítrio não existe. As tragédias são protagonizadas pelos grandes homens e mulheres, é nas comédias que o homem e a mulher comum ganham voz. Em “A História de Tróilo e Créssida”, que se passa durante a Guerra de Tróia, os generais são coadjuvantes, o grande personagem é Tersites, “a scurrilous Greek” (baixo, grosseiro, inconveniente, indecente, sujo, vil e muito engraçado), que aponta o dedo na cara da nobreza.Tersites está na Ilíada, é um figurante, manifesta-se contra a divisão dos despojos de guerra, é violentamente silenciado por Ulisses. Em Shakespeare, Tersites é protagonista, o grande personagem da peça. Ele sintetiza com perfeição os motivos da guerra: “A causa de todo este barulho é um cornudo e uma prostituta.” (II,3).  Para o homem comum, não há glória ou nobreza na guerra, só morte e destruição. Térsites diz o que pensa sobre os heróis gregos, Agamenon e Menelau, que conclamam seus soldados a segui-los para a morte. Parece com o que eu penso sobre o Putin e o Zelenski:

“Com tamanho excesso de sangue e tão pouco cérebro, esses dois poderão acabar loucos. Aí está Agamenon, sujeito suficientemente honesto, que aprecia as raparigas, mas que não tem mais cérebro do que cera de ouvido. E seu irmão, Menelau, aquela esplêndida metamorfose de Júpiter, o touro, a estátua primordial, o monumento sinuoso do chifrudo, instrumento dócil e sempre pendurado à perna do irmão. Que outra forma, a não ser a própria, poderia dar-lhe o espírito lardeado com malícia ou a malícia forrada de espírito? A de asno não lhe serviria, que ele é a um tempo asno e boi. A de boi, também não, que ele é a um tempo boi e asno. Ser eu um cão, mula, doninha, galo, lagarto, sapo, coruja, gavião, ou arenque, pouco se me dava, mas ser Menelau! Rebelar-me-ia contra o destino. Não me pergunteis o que eu desejara ser, se não fosse Térsites, pois não me importaria ser piolho de um morfético, contanto que não fosse Menelau! “ Troilo e Créssida, V,1.